Thomas Mann, o artista mestiço



Em tempos como esses, em que me pego descrente dos seres humanos ao ler notícias diárias de ignorância e desamor, gosto de pensar em Thomas Mann (1875-1955).


“A montanha mágica” (1924) é um dos meus livros preferidos. Em cerca de mil páginas, somos seduzidos por personagens brilhantes, como o humanista Lodovico Settembrini, e reflexões sobre a arte, a política, a biologia, o tempo, a morte. Poderia ser a obra de uma vida inteira. Entretanto, Mann também se dedicou a vários outros Olimpos a serem escalados por nós, entre romances, contos e ensaios. Todos marcados, basicamente, por reflexões sobre a dicotomia entre o fazer artístico e a moralidade burguesa.


Além de obras-primas literárias, “A montanha mágica” e “Doutor Fausto” (1947), por exemplo, são romances importantes à crítica do século XX e da arte moderna, com suas tramas e personagens que simbolizam a decadência burguesa na Europa e na Alemanha, respectivamente, nos períodos que antecederam as duas grandes guerras.


E a parte que nos toca é que a mãe de Mann, Julia da Silva Bruhns, era brasileira, nascida em Paraty. Sobre o assunto, o escritor alemão deu esta extraordinária declaração para Sérgio Buarque de Holanda, em 1929: “(...) Li apaixonadamente os clássicos alemães, os escritores franceses e russos e, especialmente, os ingleses, mas estou certo de que a influência mais decisiva sobre minha obra resulta do sangue brasileiro que herdei de minha mãe.”


Para quem quiser se aprofundar nesse autor impressionante, um grande homem da democracia, vale a pena conhecer o ótimo livro “Thomas Mann, o artista mestiço”, de Richard Miskolci, publicado em 2003 pela Fapesp. Há também, no YouTube, esta excelente entrevista sobre “A montanha mágica” com o professor Jorge de Almeida, da USP.

AN.